Quando compramos o barro na loja, ele já vem preparado, na consistência certa, limpo de impurezas; mas sabemos que para ter barro foi necessário juntar água a terra e, depois, sujeitá-lo a todo a um processo de qualificação.
Se a matéria não tem qualidade, tem de ser trabalhada, às vezes, duramente. Se as forças que intervêm (coesão, dispersão) não encontrarem o entendimento certo, haverá que relacioná-las para que favoreçam a materialização – a consecução desse objetivo passa, às vezes, por dominações violentas – no sentido real e também no simbólico.
Bater nas pessoas (crianças), de forma violenta, para que elas façam aquilo que nós queremos ou valorizamos, pode encontrar sentido neste contexto de trabalhar a matéria para que de escura e impura se torne clara e purificada. Mas é um sentido que não corresponde ao nosso contexto.
O corpo humano não é matéria informe – milhões e milhões de anos diferenciaram-no.
Bater de forma violenta, agride, desorganiza.
Há, porém, um bater diferente – sem violência, às vezes rítmico – que pode ser organizador.
O contexto (transformação da matéria primeira) é inspirador para torturadores e para nós quando cultivamos o masoquismo como forma de aperfeiçoamento.
Insistindo – amassar, bater, torcer, esticar, deformar os contornos, cortar, lixar, fundir, queimar…inserem-se num contexto de transformação da matéria primeira.
O sentido poderá subir de nível, ganhar uma dimensão simbólica e ser base de criação.
Atentemos neste excerto sobre a opus alquímica:
“…Descoberta a prima materia, deve-se submetê-la a uma série de processos químicos a fim de transformá-la na Pedra Filosofal.
Considerava-se a prima materia um composto, uma confusa mistura de componentes indiferenciados e opostos entre si, composto esse que requeria um processo de separação…
… uma mistura composta passa por uma discriminação de suas partes componentes. Produz-se a ordem a partir da confusão num processo análogo ao do nascimento do cosmos nos mitos de criação.”
(de: Edward F. Edinger – Anatomia da psique)
A descrição que vem, a seguir, segue os gestos (etapas) da criação de uma estátua. Este trabalho de conversão da pedra tosca em obra de arte, evoca (e supera) os tormentos que a matéria primeira tem que sofrer.
“Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura e informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem: primeiro membro a membro e, depois, feição a feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama…
(de: Padre António Vieira – Sermões)
As primeiras representações do corpo em cerâmica ou pedra são pouco diferenciadas – o todo domina a representação.
Contrariamente, a riqueza e precisão de pormenores do texto de Padre António Vieira põem em relevo uma diferenciação levada ao extremo.