Dia 1
Data: 27 de agosto de 2026
“Eu era menininha -mas lembro-me como se fosse hoje – quis muito comprar um urso que achava cinco estrelas. Além de bonito era fofo,fofo.
A minha mãe não queria comprá-lo, o meu pai muito menos. Então…uma noite…desatei aos berros a dizer que estava um urso de olhos pretos, no canto do quarto. Armada de paciência e de psicologia infantil, a minha mãe, com uma calma estudada, sugeriu que me levantasse, caminhasse até esse canto e eu própria verificasse que não havia urso nenhum.
O que eu fiz.
Mas não deixei de perguntar:
– Explica-me, então, onde estão os olhos negros do urso que eu vejo?
-Estão na tua cabeça – respondeu ela numa calma forçada.
-E como foram lá parar?- perguntei, ainda.
-Viste-os em alguma ilustração ou…
-Eu gostava de ser um urso branco.
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O tempo passou e, uma noite, aconteceu uma coisa que eu nunca entendi e de que nunca falei a ninguém – quando já dormitava, entrou de mansinho um urso branco no meu quarto, deitou-se junto de mim e ficou a fazer-me companhia. Era de um branco tão intenso que me fez esquecer os olhos negros do outro urso.
De manhã espantei-me porque acordei sozinha; mas tenho a certeza de que ele ficou junto de mim a noite inteira.
E ficou na minha memória esse urso branco que não existiu”.
De: Hei- de escrever uma história de amor – de F. Pimentel
Escolhi este texto por duas razões:
O tema – memória -faz a ligação com a parte anterior do blog,
O formato – diário – anuncia a continuidade.
Definirei a especificidade da forma – diário – no Dia 2.