Aline

Atrasara-se no tempo – deixara a idade correr demais. Atrasara-se no dia – alguém havia chegado primeiro.

Olhou a roseira – as flores vermelhas prendiam a sua atenção quando uns cabelos longos de rapariga começaram a agitar-se em frente dos seus olhos cansados.

– Por que achara que iria encontrá-la, ali, naquela casa que alguém, mais apressado, comprara?

Era certo que ela morava por ali numa qualquer aldeia.

Por ali – suspirou.

Aline – suspirou de novo.

– Já não mora aí – respondeu uma mulher que passava. Foi para França e ficou por lá.

Ele olhou a passeante…

– Não tem a direção dela?

– Eu não tenho, mas posso arranjá-la…

O olhar vazio encheu-se.

… mas não o aconselho a escrever-lhe – o marido é muito ciumento.

– É jovem o marido? – perguntou.

– Não – respondeu a mulher. Já era velho quando novo.

(e ainda ciumento… )

Subitamente, detestou a roseira, a casa e aquela aldeia. Dirigiu-se ao carro e partiu.

A casa, onde iria passar as férias, encontrar Aline e sentir -se novo, ficara para trás. Ponto final.

Fez alguns quilómetros, mas o ponto final pesava-lhe, pesava-lhe.

 Inverteu a marcha e voltou.

Empurrou de mansinho a porta da casa e foi entrando. Sentia-se a desvendar intimidades quando uma fotografia, já desmaiada, o atraiu. “Aline 1952” estava escrito no canto inferior, direito.

Não era aquela a “sua” Aline, não era aquela a casa que procurava.

Esta pequena narrativa vale por si, mas poderá ser inserida numa crónica de tamanho médio.

Ganhará com uma introdução.

Uma conclusão (reflexão) será necessária.

Aproveito para desejar boas férias a quem parte e informar que a

próxima publicação será a 19 de Junho.