Qualquer que tenha sido o destino que cada um deu à bola azul e ao pedregulho, eu sugiro a visualização do pedregulho a pulverizar-se, a virar uma nuvem espessa e escura.
Depois de passar pela bola, as partículas da nuvem voltam a ligar-se e formam um novo pedregulho.
Quanto à bola, vamos deixá-la com uns pequenos golpes na superfície, além do susto, claro.
Não esquecer que a repetição é essencial.
As memórias remotas mais perturbadoras são as que se referem a momentos evolutivos anteriores à linguagem. Irrompem sem qualquer organização, são difíceis de contextualizar e muito difíceis de integrar.
Escrever sobre elas, contá-las e, sobretudo, arrumá-las numa pequena narrativa é uma forma de as organizar – ainda que tudo se passe num registo pouco consciente.
A narrativa pode ser uma forma de estabelecer uma ligação com o passado e, também, com o futuro.
Pode ainda ser uma forma de ligar a fantasia e a realidade num diálogo saudável.
Todos gostamos de contos, todos sabemos escrever ou contar um conto.
Há muitos autores a falarem sobre o conto e de forma diversa.
Joanne Harris (escritora inglesa) fala de uma situação normal que, de repente, se transforma, encanta, seduz, leva a outro nível.
Edgar Allan Poe fala sobre o efeito do conto no leitor – medo, compaixão ou reflexão.
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Há outras formas de criar ligação, através de atividades do dia a dia que executaremos com esse objetivo:
Fazer puzzls, coser as duas partes de um tecido, ligar os fios soltos de uma rede…,
Vermo-nos a percorrer uma ponte ou a atravessar um túnel,
Sentir empatia por alguém.
A que, a seguir, proponho é difícil e pede tempo.
Estamos num alto escarpado na margem de um rio. Na margem oposta há um outro alto escarpado.
Queremos atingir o lado de lá. Visualizamos uma linha que une os dois lados. Percorremos essa linha, sem cair. O rio lá no fundo, de águas escuras, pode evocar a memória de um buraco negro e dificultar a tarefa.
Mas teremos de repetir até conseguir.
Somos os heróis nesta ficção – o nosso objetivo é atingir o outro lado. Se não conseguirmos, teremos de encontrar outro objetivo tão importante ou mais.
E conseguir.