“No início tudo era quieto e inodoro.
A virtualidade de uma partícula era tão semelhante à virtualidade de outra que dificilmente se distinguiriam – nada acontecia porque as diferenças eram subtis.
Um dia, uma luz mais incidente iluminou essa diferença ínfima e um leve sobressalto percorreu o mar imenso da virtualidade.
A luz afastou-se; mas a memória ficou. Ficou a trabalhar, de mansinho, de forma implícita até que, um dia, encontrou um cheiro correspondente a essa luz e, não esperou mais – lançou-o pela extensão infinita da virtualidade.
Então, a bela adormecida acordou – olhou espantada para as possibilidades incontáveis daquele mundo, deitou mãos à obra e pôs tudo a mexer.
Mas não foi fácil – como não é fácil nenhum começo – a virtualidade não encontrava a forma de se materializar. A Bela, agora acordada, ordenou, de novo, o repouso – os seus ouvidos já não suportavam aquele bulício que não era movimento nem som, mas os dois, ao mesmo tempo
(temos de voltar ao início)
mas já tinham nascido coisas que ela não tinha previsto – como as anularia?
Felizmente, a memória estava lá. Sentia-se um pouco culpada por não ter ajudado, mas sentia que não tinha de dar satisfações a ninguém.
A Bela propôs-se, então, a refazer o percurso até à virtualidade estática do início
(vou ter de morrer de novo…não quero morrer …
talvez renasça de forma diferente, mas não é certo…
além do mais morrerá tudo o que já nasceu)
Foram tempos difíceis, de intenso conflito. Até que ela resolveu partir a confusão ao meio e decidiu que, só uma parte voltaria ao início. A outra continuaria.
Só depois percebeu que, ao partir a totalidade, tinha criado dois mundos.
(Textos)