– Aceita-o! … é parecido contigo.
– Mas se é uma paisagem! – considerou a rapariga.
– Com doces colinas e um lago azul, transparente – completou Pedro.
Ele olhou o campo e as árvores que tinham crescido na sua ausência. Depois, um cão já velho, correu ao seu encontro e pôs-se a ladrar.
– Cala-te! – não quero que deem por mim, quero habituar-me a esta planície de onde parti há tanto tempo.
O farrusco, porém, continuava a ladrar.
Uma timidez desconhecida entorpecia-o. E o cão que não se calava! – passou-lhe a mão pelo dorso até ele sossegar.
Ficou sentado numa pedra a ordenar imagens antigas, mas ainda claras, do seu passado naquele local – uma miúda gorducha passava na sua memória.
O pai morrera – soubera-o naquele dia cinzento, naquele país cinzento. A partir daí, só quis voltar.
A mãe, já velhinha, nem sairia de casa.
A porta do seu quarto pequeno, mas lavado, abria-se e soltava o cheiro a alfazema. Levantou-se para avançar; mas as pernas tremeram-lhe.
O farrusco calara-se e a miúda gorducha, feita mulher, saía de casa da sua mãe com um filho ao colo e outro pela mão
(com quem terá casado?)
(foi retirada uma parte significativa do texto original, como se verá, a seguir)
No hospital, onde passou quase um mês, recebeu uma visita.
A Zulmira contou-lhe que eram irmãos – o pai deles, à hora da morte, havia contado à mãe e pedira-lhe que olhasse por ela.
Incrédulo, não sabia o que pensar nem o que sentir. Quando a mão dela lhe acariciou a testa, desviou-a com força.
Ela entendia, tinha ocupado o seu lugar; mas o lugar também era dela.
Pedro acalmou-se:
– E a minha mãe morreu amargurada, certamente?
– Fui eu que tratei da tua mãe até ao último dia e tratarei de ti se decidires ficar.
– Tenho negócios, tenho família.
– Como queiras.
A Zulmira preparava-se para partir, mas, antes, disse:
– Já encontrei um advogado, ele vai tratar de tudo – vê se recuperas.
A irmã não tinha ocupado o espaço dele…não… tinha… – o entendimento era difícil.
E continuaria difícil durante algum tempo.
Quando quis ir embora, procurou a Zulmira na casa que fora dele.
Entrou com um enorme quadro na mão. Tinha-o comprado, mal chegara – fora amor à primeira vista.
– Aceita-o!… é parecido contigo.
– Mas se é uma paisagem… considerou a rapariga.
– … Com doces colinas e um lago azul, transparente – completou Pedro.
A proposta que deixo é a de completar a narrativa, ligando a parte inicial à final.