A janela

Estas memórias na história de Lua pertencem a um período definido (o dos doze anos). O momento da narrativa torna presente (edita) a memória passada. Passado e presente misturam-se.

“O caminho subia, subia – o esforço de Lua era evidente – queria chegar à curva do monte como tantas vezes conseguira na companhia de Rafael

– estamos a chegar, pedala, Lua!…estamos quase a chegar.

Ela pedalava, pedalava; mas um mal estar desconhecido começava a tomar conta do seu corpo.

A voz de Rafael perdia-se no tempo … vou chegar primeiro… o tempo era o dos seus doze anos, era ainda o dos treze de Rafael

– cuidado! Vamos chocar!

As bicicletas rolavam pela encosta – eles caíam um sobre o outro.

Divertidos, de início, foram ficando sérios, a olhar-se nos olhos, depois, o olhar de Rafael desviou-se para os lábios de Lua

– estás a magoar-me…

Ele acertou a posição e ela pôde aproximar a sua boca da dele.

Não se ouvia um bulício – a aldeia ficara longe e estava, ainda, a espreguiçar-se. Acordado, o desejo deles pediu outros beijos.

Seis anos haviam passado – Lua tinha, agora, dezoito. Rafael partira para o Canadá para junto do pai.

Antes de guardar a bicicleta, ela olhou o cabeço – era grande e redondo como então. Os castanheiros do sopé continuavam majestosos; mas a dimensão daquele espaço alterara-se – só fazia sentido com Rafael a seu lado.

 Chegada ao quarto, tudo lhe recordava a presença do seu amor

 o enorme peluche que ele lhe oferecera tinha ela oito anos,

a grande fotografia na parede,

as gavetas que, ao abrir-se, expunham bilhetes com mensagens apaixonadas.

Porém, mais forte que tudo, era aquela janela a abrir-se para o passado

– Lua! Chegou, vem vê-lo.

A sua mãe contara-lhe que a mãe dele tinha morrido, o pai precisava de emigrar – ele ficaria a viver com os avós. Os avós eram os seus vizinhos mais próximos – o grande terraço da casa deles colava com a parede do quarto de Lua.

Ela ficou à janela, em bicos de pés, para ver melhor o terraço – Rafael abraçava o pai. Este, com evidente tristeza, desejava que aquele interminável amplexo acabasse.

Lua sentiu o braço da mãe a amparar-lhe os ombros – que fossem amigos, que o convidasse a ir lá para casa.

Ficou a ver o pai de Rafael a afastar-se.

Os braços da mãe desampararam-lhe os ombros – um leve estremecimento trouxe-a ao presente. A mala sobre a cama atraiu a sua atenção.

Antes de descer para jantar, Lua não resistiu a rever o terraço.

Através daquela janela enviara e recebera declarações de amor – fora, ainda, aquela janela que trouxera, alta noite, Rafael para a sua cama.

As paredes perdiam cor – ela ficou a ver o amarelo a desvanecer-se, a ser levado pela brisa da noite.

Depois teve frio e fechou a janela.

(Manhã de orvalho)