Negro
Pierre Soulages (1919- 2022), pintor do negro, explorou, de forma insistente, o efeito da luz sobre a cor preta.
O negro – sentia – mexe com as nossas emoções, as nossas memórias.
Ao incidir sobre o negro, a luz transforma-o, opera uma transmutação.
Será a cor (ou não cor) negra sinal de indiferenciação? O seu sentido estará próximo de informe?
Há sinais de que a evolução se fez afastando-se do negro – branqueando o negro, iluminando o negro.
Há sinais de que o negro – em contexto de começo – tinha um sentido negativo.
Esse sentido negativo atualiza-se no nosso contexto – mais nuns períodos que noutros, mas persiste.
O pequeno diálogo, a seguir, fazia parte de “Entre ontem e amanhã” e referia-se à narrativa “Cobra, rapaz”.
“- O rapaz introduziu o movimento para organizar ou para a aclarar a massa?
– Não pensei nisso. Isto é ficção.
– Mas é ficção tua.
– Não poderá ser ambas as coisas?”
Quando penso em chicotadas, relembro as imagens sangrentas que as produções televisivas usam (e, por vezes, abusam) – referem um capataz implacável (branco, naturalmente) a bater nas costas de um negro numa qualquer plantação.
Claro que há outras pessoas que utilizam o chicote. Várias vezes me interroguei qual era o sentido primeiro desse ato brutal.
- Abrir golpes por onde possa entrar a luz?
- libertar algo melhor que está escondido?
Porque se chicotear é uma brutalidade, aparece um bater suave que tem sentido positivo.
Estaremos a falar de um bater já organizado?
Chicote aparece, por vezes, como símbolo de raio. Poderemos extrapolar e pensar que chicotear se relaciona com este sentido?
E qual será a relação de chicote com serpente? Porque há uma relação.